Sistemas de gestão ISO no setor mineiro angolano: valor estratégico, maturidade operacional e sustentabilidade

Entrevista com a Dra. Irene Barata, Diretora-Geral da PetroShore Compliance.

O setor mineiro angolano atravessa uma fase de consolidação. A produção já não é suficiente. Hoje em dia, a competitividade depende da demonstração de uma gestão sólida, do controlo de riscos e da conformidade com as normas internacionais.

Neste contexto, as normas ISO 9001, ISO 14001 e ISO 45001 consolidam-se como ferramentas estratégicas. Proporcionam eficiência operacional, prevenção de incidentes e confiança junto de investidores, financiadores, seguradoras, entidades reguladoras e comunidades.

A PetroShore Compliance mantém uma presença ativa no setor mineiro angolano. Presta serviços de consultoria para a implementação eficaz de sistemas de gestão ISO em organizações com elevada complexidade operacional. Entre os projetos, destacam-se a Sociedade Mineira do Luele, a ENDIAMA E.P., a GEOANGOL e o CEFOPE.

Nota técnica: a ISO não certifica organizações. A certificação é realizada por organismos independentes através de auditorias aos sistemas implementados.

Por que razão os sistemas ISO se tornaram tão importantes na indústria mineira angolana?

P. Por que razão os sistemas de gestão ISO estão a tornar-se relevantes no setor mineiro?

Porque a mineração é uma atividade de elevada complexidade e risco, em que a solidez da gestão se mede pela capacidade de antecipar, controlar e melhorar o desempenho. As normas ISO — em particular a ISO 9001, a ISO 14001 e a ISO 45001 — oferecem uma estrutura comum baseada na abordagem por processos, no pensamento baseado no risco e no ciclo PDCA, exigindo planeamento, controlo operacional, gestão de alterações, acompanhamento e avaliação do desempenho, tratamento de não conformidades e melhoria contínua. Na prática, isto permite às organizações passar de uma gestão reativa para uma gestão proativa, com decisões sustentadas em dados e evidências objetivas, alinhadas com as expectativas dos investidores, reguladores e outras partes interessadas.

O que muda, tecnicamente, quando um grande projeto adota um sistema ISO?

P. Que impacto tem para Angola o facto de as empresas mineiras adotarem e manterem sistemas ISO?

Muda a forma como a operação é controlada no dia-a-dia. Em vez de depender de práticas informais, a organização passa a trabalhar com critérios definidos para atividades críticas, pontos de verificação, registos e regras claras de atuação. Isto abrange, por exemplo, a forma como se controla a qualidade do processo e do produto, como se gerem os aspetos ambientais relevantes, como se previnem acidentes e como se trata um incidente até à eliminação da causa. O resultado é muito prático: menos desvios e reprocessamentos, menos incidentes e maior estabilidade operacional, porque a gestão passa a basear-se no controlo, acompanhamento e melhoria contínua.

Qual é a importância das normas ISO para os investidores e as instituições financeiras?

P. Por que razão os investidores e financiadores valorizam os sistemas ISO?

Porque um sistema ISO bem implementado é um sinal de maturidade na gestão e no controlo operacional. Demonstra que a organização possui políticas e objetivos claros, acompanha o desempenho através de indicadores, gere os desvios de forma estruturada e revê regularmente a eficácia do sistema ao nível da direção. Para investidores, bancos e seguradoras, isto é relevante porque, embora não elimine o risco, demonstra que o risco é identificado, avaliado, controlado e acompanhado, com evidência e consistência — o que reduz a incerteza e facilita os processos de due diligence técnica, ambiental e de segurança.

Segurança e saúde: o que muda na prática?

P. O que muda, concretamente, para os trabalhadores?

Muda a forma como a segurança e a saúde no trabalho são organizadas e controladas pela empresa. A norma ISO 45001 exige que a Segurança e Saúde no Trabalho seja tratada como um sistema: identificação de perigos, avaliação de riscos, definição de controlos para atividades críticas, preparação para emergências e aprendizagem a partir de incidentes, através da investigação e de ações corretivas. Para os trabalhadores, isto traduz-se em critérios claros de trabalho seguro, formação consistente, mecanismos de comunicação, consulta e participação, e maior previsibilidade nas medidas de prevenção, com foco na eliminação das causas e não apenas no tratamento das consequências.

Ambiente: do cumprimento formal ao controlo efetivo

P. E em termos ambientais?

A norma ISO 14001 faz com que a organização passe de uma gestão «baseada na intenção» para uma gestão baseada no controlo. Obriga a identificar os aspetos ambientais com impacto relevante, a definir medidas de controlo, a monitorizar os aspetos críticos e a gerir as obrigações de conformidade de forma sistemática. Na prática, isto significa prevenir impactos, detetar desvios mais cedo, responder com ações concretas e demonstrar o desempenho ambiental com dados e evidências — o que também melhora a credibilidade perante as comunidades, as autoridades e os parceiros.

Impacto na cadeia de valor e nos fornecedores

P. Que impacto tem isto nos fornecedores, prestadores de serviços e subcontratados?

No setor mineiro, uma parte muito significativa do trabalho é realizada por fornecedores, prestadores de serviços e subcontratados, pelo que estas entidades são, na prática, partes interessadas determinantes no desempenho global da operação. Com a implementação das normas ISO, a organização passa a aplicar regras mais claras e consistentes de seleção, qualificação e avaliação de desempenho, definindo requisitos de qualidade, ambiente e SST, e garantindo o controlo das atividades contratadas e dos seus resultados. Este quadro tende a produzir um efeito positivo em cadeia: à medida que os requisitos e a avaliação se tornam mais exigentes e objetivos, muitos fornecedores evoluem para níveis superiores de organização — e, em vários casos, são motivados a implementar os seus próprios sistemas de gestão e a avançar para a certificação, para continuarem a ser competitivos e elegíveis. A vantagem para a operação é direta: aumenta-se o controlo e a previsibilidade da cadeia de abastecimento, reduz-se a variabilidade na execução, diminuem as falhas recorrentes e melhora-se a gestão dos riscos indiretos associados às atividades contratadas.

Relação com entidades reguladoras e autoridades

P. As normas ISO facilitam ou dificultam a relação com as entidades reguladoras?

São úteis — e podem ser muito úteis — quando existe uma compreensão clara de que as normas ISO não substituem a lei, mas estruturam a forma como a organização garante e demonstra o cumprimento das suas obrigações. Um sistema ISO obriga a identificar as obrigações de conformidade, a integrar os requisitos legais no controlo operacional, a avaliar periodicamente a conformidade e a manter registos. Para as autoridades, isto facilita o acompanhamento, porque há maior rastreabilidade, maior consistência e maior capacidade de resposta com informação estruturada. Para as empresas envolvidas, a vantagem não é apenas «cumprir»: é reduzir o risco operacional e de reputação, antecipar desvios, melhorar a estabilidade do negócio e reforçar a confiança institucional — o que é particularmente relevante em setores de alto risco, como a mineração.

Comunicação responsável sobre certificações ISO

P. Quais são os principais cuidados a ter na comunicação das certificações?

Comunicar uma certificação é importante — e deve ser feito. Em muitas organizações, a certificação é um objetivo estratégico e também um objetivo interno motivador: representa o resultado do trabalho conjunto, do envolvimento das equipas e da consolidação de novas práticas. O essencial é que a comunicação seja feita com veracidade, clareza e um sentido de continuidade. Em primeiro lugar, é importante transmitir que a certificação não é um ponto de chegada, mas sim um marco dentro de um sistema que deve ser mantido e melhorado ano após ano. O verdadeiro valor reside na capacidade da organização de demonstrar, de forma consistente, que aprende com os desvios, reforça os controlos, melhora o desempenho e responde às expectativas das suas partes interessadas — trabalhadores, comunidades, reguladores, investidores, clientes e parceiros. Em segundo lugar, a mensagem deve ser tecnicamente rigorosa: comunicar «certificado segundo a ISO X», indicar o organismo certificador e esclarecer o âmbito (atividades, processos e locais abrangidos). Esta clareza protege a credibilidade e evita interpretações indevidas. Por último, do ponto de vista da PetroShore Compliance, a comunicação destas conquistas faz sentido porque vemos cada cliente como um parceiro. A PetroShore Compliance é uma parte interessada no processo de implementação, na medida em que trabalha lado a lado com as organizações na definição de um modelo de sistema de gestão com o qual a empresa se identifique e que seja operacionalmente sustentável. Quando um cliente alcança a implementação e a certificação, a divulgação — sempre com rigor e respeito pelas regras aplicáveis — é também uma forma de reconhecer o esforço coletivo, reforçar a confiança do mercado e evidenciar que é possível elevar os padrões do setor de forma consistente.

Sobre a SMLuele e a ENDIAMA E.P.

P. Em comunicações públicas recentes, falou-se de certificações ISO em projetos-chave do setor, como o SMLuele e a ENDIAMA E.P. Sem entrar em detalhes internos, qual é a sua interpretação destes avanços?

São sinais muito positivos e tecnicamente relevantes. Quando organizações de referência avançam na implementação de normas internacionais, isso transmite ao mercado uma mensagem clara de compromisso com a qualidade, a gestão ambiental e a segurança e saúde no trabalho, e demonstra a capacidade do país para operar de acordo com padrões internacionalmente reconhecidos e com uma melhoria contínua estruturada. A PetroShore Compliance, no âmbito dos seus contratos de consultoria, apoiou estes processos de implementação através de consultores experientes, trabalhando lado a lado com as equipas internas na definição, operacionalização e consolidação de sistemas de gestão adaptados à realidade de cada organização. Valorizamos o facto de termos contribuído tecnicamente, com uma consultoria dedicada e orientada, para que estas organizações alcançassem os seus objetivos.

Avaliação da satisfação do cliente

A P. PetroShore Compliance realiza inquéritos de satisfação junto dos clientes no final e durante os projetos. Que importância atribui a esse feedback — e como é tratado, sobretudo quando a avaliação não é positiva?

O feedback do cliente é um elemento essencial para a melhoria do nosso desempenho e está totalmente alinhado com a lógica dos sistemas de gestão: medir, analisar e melhorar. Sempre que uma avaliação é menos positiva, tratamo-la com a seriedade de uma reclamação: analisamos o contexto, identificamos as causas que estiveram na origem dessa perceção, definimos ações corretivas e acompanhamos a sua eficácia, para evitar que se repita. Na PetroShore Compliance, a avaliação de satisfação não é um ato formal — é um instrumento de gestão. É com base nessas avaliações, e nas evidências recolhidas ao longo do trabalho, que ajustamos metodologias, reforçamos práticas de acompanhamento e elevamos continuamente a qualidade técnica da intervenção. Nos projetos de implementação e acompanhamento das normas ISO no Grupo ENDIAMA E.P. e na Sociedad Minera de Luele, essa avaliação tem um valor adicional: ajuda-nos a garantir que o sistema implementado não fica apenas «em conformidade», mas é reconhecido como útil, aplicável e sustentável pela organização. E há um indicador particularmente relevante de confiança: quando os clientes nos recomendam a outras organizações. Para nós, essa recomendação é uma validação do valor entregue e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade adicional para manter o mesmo rigor e consistência em cada projeto.

Integração de sistemas: uma tendência inevitável?

P. O que costuma correr mal quando uma empresa «quer a certificação ISO», mas não muda realmente?

Quando o foco se limita à documentação, sem alterações reais na forma de planear, executar e controlar as atividades, o sistema não se integra no trabalho quotidiano. Normalmente, falha em três pontos: liderança e responsabilidade (funções e competências pouco eficazes), controlo operacional (regras e critérios para atividades críticas que não são aplicados de forma consistente) e tratamento de desvios (não conformidades e incidentes sem investigação da causa e sem ações corretivas sustentáveis). Sem estes elementos — e sem indicadores que mostrem o desempenho real — a certificação pode até ocorrer, mas a organização não evolui e o sistema não é mantido de forma eficaz.

Prioridades técnicas para 2026–2027

P. O que será tecnicamente mais relevante nos próximos anos?

O próximo passo para o setor mineiro será consolidar a maturidade dos sistemas ISO e garantir a sua alinhamento com referências setoriais mais exigentes, como a IRMA, que introduz expectativas mais abrangentes em termos de desempenho, transparência e cadeia de valor. Isto implica reforçar, na prática, o controlo operacional, a gestão de riscos e a capacidade de demonstrar resultados de forma consistente. Paralelamente, tornar-se-á cada vez mais crítico integrar clareza e solidez noutros processos transversais que sustentam a operação e a confiança do mercado, em particular a conformidade (obrigações, integridade, mecanismos de reporte e tratamento) e a segurança da informação (proteção de dados, controlo de acessos, continuidade e fiabilidade da informação). Ou seja: mais do que «ter certificações», o foco passa a ser garantir sistemas integrados, coerentes e sustentáveis, capazes de responder aos requisitos internacionais e às expectativas das partes interessadas.

Mensagem final aos decisores do setor

P. Que mensagem deixaria aos líderes do setor mineiro?

Um sistema ISO não é um fim em si mesmo — é um modelo de gestão. Quando encarado dessa forma, protege as pessoas, o ambiente e os ativos, reduz as perdas, aumenta a previsibilidade e reforça a confiança. E, num setor como o mineiro, essa maturidade contribui não só para a solidez das organizações, mas também para a credibilidade do setor e do país perante os parceiros internacionais.

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Mais informações sobre os serviços da PetroShore Compliance em consultoria regulamentar para o setor mineiro:
> ISO 9001: Sistema de Gestão da Qualidade
> ISO 14001: Sistema de Gestão Ambiental
> ISO 45001: Sistema de Gestão da Segurança e Saúde no Trabalho

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