O que os incidentes ferroviários de janeiro de 2026 revelam sobre a segurança dos passageiros
Os incidentes ferroviários ocorridos em janeiro de 2026 na Espanha evidenciam que a segurança dos passageiros é um sistema sociotécnico, no qual a infraestrutura, o ambiente, a operação e o software devem ser gerenciados de forma integrada, de acordo com as normas europeias e nacionais.
O que aconteceu em janeiro de 2026 na rede ferroviária espanhola?
Acidente em alta velocidade em Adamuz (Córdoba)
Em 18 de janeiro de 2026, um acidente na linha de alta velocidade na altura de Adamuz (Córdoba) provocou uma interrupção significativa do serviço.
Os primeiros avanços públicos apontaram a ruptura de uma soldadura como a principal causa do descarrilamento.
A Comissão de Investigação de Acidentes Ferroviários (CIAF) enfatizou uma abordagem não punitiva, focada em identificar o que falhou, por que e como poderia ter sido evitado.
Incidentes na Rodalies associados à tempestade
Em 20 de janeiro de 2026, a rede Rodalies (Catalunha) registrou dois incidentes distintos:
Colisão de um trem da R4 após a queda de um muro sobre os trilhos, relacionada à tempestade.
Saída de um eixo devido à presença de uma pedra na via entre Tordera e Maçanet-Massanes, sem feridos, com evacuação e serviço alternativo.
Falha de software no centro de controle de Barcelona
Entre 26 e 27 de janeiro de 2026, a Rodalies sofreu uma interrupção no serviço atribuída a uma falha de software no centro de controle da Adif na estação de França.
De acordo com as declarações divulgadas, foram descartadas hipóteses de sabotagem, ataque cibernético e erro humano, apontando-se para uma falha de projeto em um sistema instalado poucos meses antes.
Qual é o fio condutor que une esses incidentes ferroviários?
Esses episódios confirmam uma ideia fundamental: a segurança ferroviária não é um evento isolado, mas um sistema sociotécnico complexo.
A proteção do passageiro depende da coordenação eficaz entre:
- Infraestrutura e manutenção: soldaduras, vias, taludes, drenagens, muros e entorno ferroviário.
- Gestão de riscos diante de mudanças: obras, renovações parciais e decisões de priorização de ativos.
- Operação e controle: sinalização, centros de controle, comunicações e software crítico.
- Clima e eventos extremos: tempestades, deslizamentos e adaptação a cenários mais exigentes.
Quando um desses elementos falha, o impacto se propaga em cadeia.
Qual é o quadro normativo que "abrange" esses casos?
1. Segurança ferroviária na União Europeia
A Diretiva (UE) 2016/798 estabelece responsabilidades claras entre operadores, administradores de infraestruturas e autoridades nacionais.
O seu eixo central é uma abordagem sistemática de gestão e supervisão da segurança, para além da mera reação ao acidente.
2. Gestão de riscos e alterações técnicas ou operacionais
Os Métodos Comuns de Segurança (CSM) da UE exigem a avaliação e o controle dos riscos quando são introduzidas alterações:
Renovações parciais da infraestrutura.
Novos sistemas de controle.
Ajustes organizacionais ou operacionais.
3. Digitalização segura e sistemas críticos
No setor ferroviário, o ERTMS/ETCS atua como padrão europeu de proteção automática de trens.
De uma perspectiva transversal, a Diretiva NIS2 reforça a gestão de riscos digitais em setores críticos, como o transporte.
Uma falha de software, mesmo que não seja um ciberataque, deve ser tratada como um risco crítico de design, testes, auditoria e continuidade.
4. Sustentabilidade e resiliência do transporte
A Espanha aprovou a Lei 9/2025 de Mobilidade Sustentável, que integra:
Digitalização do transporte.
Adaptação às mudanças climáticas.
Planos de emergência para incidentes recorrentes.
Este quadro está alinhado com o Green Deal e o Fit for 55 da UE.
Além disso, o CSRD aumenta os requisitos de relatório de riscos operacionais e climáticos para muitas empresas do ecossistema ferroviário.
Por que esses incidentes afetam as empresas além da logística?
A segurança ferroviária tem impacto direto na governança empresarial do risco.
Não se limita ao cumprimento operacional.
Integra quatro dimensões inseparáveis:
Segurança operacional: infraestrutura, manutenção e fatores humanos.
Digitalização avançada: sinalização, software crítico e controle.
Resiliência operacional: continuidade do serviço e degradação segura.
Sustentabilidade e clima: adaptação a eventos extremos e relatórios regulatórios.
Uma falha pontual pode resultar em evacuações, interrupções, saturação das estações e incerteza para o passageiro, afetando a reputação, a confiança e a tomada de decisões.
Lista de verificação prática para avaliar a maturidade em segurança do passageiro
As organizações que fazem parte do sistema ferroviário devem considerar estas questões fundamentais:
- Como o risco é avaliado e documentado quando uma mudança técnica ou operacional é introduzida?
- Existe rastreabilidade do estado dos ativos críticos e critérios claros de priorização?
- Que mecanismos de degradação segura existem em caso de falhas de controle ou TI?
- O ambiente ferroviário é gerenciado como um risco estrutural e climático para a segurança?
- A comunicação com o passageiro faz parte do sistema de segurança e continuidade?
Perguntas frequentes:
✔️ O que nos ensinam os acidentes ferroviários de janeiro de 2026?
Que a segurança do passageiro depende de um sistema integrado, e não de um único elemento técnico.
✔ Uma falha de software pode ser considerada um risco para a segurança ferroviária?
Sim. O software é um componente crítico que deve ser gerenciado com critérios de segurança e continuidade.
✔ Que regulamentação europeia rege estes aspetos?
A Diretiva (UE) 2016/798, os CSM, ERTMS/ETCS e a Diretiva NIS2.
✔ Por que a sustentabilidade influencia a segurança ferroviária?
Porque o clima e os eventos extremos afetam diretamente a infraestrutura, a operação e a continuidade do serviço.
🔗 Mais informações sobre a Comissão Europeia – Segurança ferroviária
🔗 Mais informações na Agência Ferroviária da União Europeia (ERA)
🔗 Mais informações no Ministério dos Transportes e Mobilidade Sustentável (Espanha)
A atualidade muda rapidamente. A forma de gerenciar o risco faz a diferença.
Refletir hoje sobre sistemas, regulamentação e resiliência é fundamental para tomar melhores decisões amanhã.
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